Do Pop ao Teatro de Rua Revoluções Ibéricas de Género em António Variações e José Pérez Ocaña
Sumário:
“Numa era, em que se começa a se verificar algumas mudanças relativamente a homossexualidade, a Ibéria tem ainda um longo caminho a percorrer para romper com as mentalidades de dominação masculina. ao longo dos séculos, as instituições de poder têm persistido em governar os nossos corpos, e têm legislado contra o género, a sexualidade e atos sexuais considerados desviantes das normas prescritas. a música, a dança assim como a performance também foram julgadas pelas ambiguidades que poderiam perpeturar. no contexto Ibérico, estas identidades também não se encontraram isentas destas legislações e punições e com a instauração dos regimes salazarista em Portugal, e franquismo em Espanha foram reforçadas estas leis e medidas de coerção contra estes atos sexuais que divergem da normatividade. Com o fim destes regimes ditatoriais na década de setenta, a Ibéria sofreu um boom em vários aspectos socioculturais e políticos. Foi durante esta mesma altura, que Portugal e Espanha viriam a conhecer dois perfomers que marcaram este período de transição: António Variações e José Pérez Ocaña. Estes dois artistas não só acabariam por mudar a realidade destas duas sociedades, mas também acabariam por desempenhar um papel fulcral em termos sexuais e de género, embora isto não fosse visível para todos. Ambos artistas acabaram por ter um papel importantíssimo na articulação e construção de identidades que se encontram fora da esfera normativa. “
Editado por: Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva

Comentário:
A minha pesquisa debruça-se sobre as produções musicais e as performances de António Variações em Portugal e de José Pérez Ocaña em Espanha. Primeiramente, desenvolverei uma análise crítica sobre a sexualidade, o género e as construções binárias da masculinidade e da feminilidade. Explorarei como os atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo começaram a ser legislados e medicalizados pelas sociedades ocidentais e de que maneiras é que a (homos)sexualidade foi sucumbida ao bas-fonds pelos regimes ditatoriais. Neste estudo oferecerei uma leitura atenta das criações culturais de Variações e de Ocaña. Para apoiar a análise textual, musical e visual das representações culturais selecionadas, a teoria queer será adoptada como modelo teórico. Os principais conceitos postulados e estabelecidos por Michel Foucault, Judith Butler, Eve Kosofsky Sedgwick, entre outros, serão aplicados às produções culturais para permitir uma deconstrução queer dos textos, das performances e das relações com o contexto histórico, social e cultural de Portugal e de Espanha. Para além deste objectivo geral, o principal objectivo desta pesquisa é demonstrar a importância que António Variações e José Perez Ocaña tiveram na construção de uma cultura queer nestes países, uma vez que ambos os países haviam sido “dominados” durante décadas pelos regimes ditatoriais Salazarista e Franquista. Estes regimes defendiam a ideia de que a homossexualidade era uma “perversão” e como tal, esta teria que ser ser exterminada, de maneira a não pôr em causa os bons valores e a moralidade destas nações. Portanto, o objectivo principal desta tese será a análise das performances destes artistas em contraponto às representações dominantes de género estabelecidos por estes dois regimes ditatorias e as razões que levaram a estes artistas a usarem a música e as performances para expressarem género não-normativo e identidades sexuais. Ao analisar estes períodos poderemos observar os motivos pelos os quais a cultura queer era inexistente, ou mais problematicamente, invisível.”